sábado, 9 de outubro de 2010

Crítica Musical

Calendário do Som - 9 dias

Uma imagem recorrente no vocabulário das trilhas sonoras hollyooddianas é a que associa gotas de gelo, sol e o brilho dos sons agudos do piano. O gelo frio produz calor e tempo...um tempo preciso, onde os nove dias de um calendário sagrado reúnem em si todas as estações do ano. Nove dias vividos em um átimo, nove dias prenhes da completude de um ciclo temporal...tudo isso no som.
Ou melhor, na sonoridade do CD que agora escuto. A música do Hermeto parece fazer bem aos músicos Fabiano Araújo (piano, arranjos e produção), Arild Andersen (baixo acústico), Alexandre Frazão (bateria), Guto Lucena (sax soprano e flauta). A música dos músicos faz bem à composição do Hermeto. Uma síntese necessária que revela muito além de estilos pessoais e denominações de gênero.
O jazz, a MPB...sei lá precisamente de que se trata a música, mas ouvindo-a sei que é música de qualidade...música que faz o som do piano parecer som de piano...que faz o baixo parecer o antigo e bem vindo tenore, assim como faz os sopros insinuarem a superfície lisa do metal... e a leveza dos sons percutidos da bateria que literalmente conduzem o corpo em direção à música. A música, portanto, reina absoluta neste calendário.
Sons pontilhados, que logo ganham movimento decursivo, abrem cada movimento, arpejos, melodias tiradas de escalas, como forma tirada da pedra...Calendário do som é poesia extraída do pensamento maximamente criativo...do pensamento da música.
27 de Junho de 1996, 14 de Novembro de 1996, 24 de Setembro de 1996, 09 de Junho de 1997, 23 de Junho de 1996, 09 de Agosto de 1996, 16 de Março de 1997, 05 de Maio de 1997, 11 de Dezembro de 1996...E por que não todos os dias...que não são propriamente datas, mas o tempo de um calendário livre...em que nos dias cabem todos os afetos.
A música está devidamente registrada em um artefato bem acabado, que conta com o talento, dentre outros, de Fernando Rocha e Robert Souza (gravação), Janayna Araújo (design gráfico), Nana de Sousa Dias (fotografia da capa), André Dias (masterização), Pablo Carneiro (edição de imagem) e Pedra Trêpa, que assina a produção em conjunto com Fabiano Araujo.

José Eduardo Costa Silva

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